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sábado, maio 7

O bilhete III




Minha querida boneca de porcelana, talvez hoje seja o dia certo para te dizer o porquê de gostar da tua nudez – de te desnudar, sabes? Embora não saiba se me podes compreender, porque afinal tu não podes perceber o que é alguém inspirar-te, quando tu és a inspiração de alguém todos os dias – a minha diria eu, se me pudesses escutar para entender – não concordas comigo? Mas eu vou tentar explicar-te, porcelana preciosa.
Eu gosto de te desnudar – ou trocar-te as roupas – porque cada vez que te dispo, posso observar cada nódoa que trazes no corpo, e é isto que não sabes, mas eu julgo-as um sonho teu realizado – e tu tens tantas. E depois eu gosto sempre de acariciar as tuas cicatrizes, gosto de te passar um dedo ao de leve e seguidamente esfregá-las, esfregá-las com todo o carinho que possuo em mim, como se pudesse ficar igual a ti – manchada de sonhos.
É isso, para mim, tu não trazes nódoas no corpo, trazes sonhos, e eu poderia dizer-te que invejava isso em ti não fosses tu a minha boneca musa sonhadora, a pessoa mais bonita que se alçou na minha vida. És bonita, bonita mesmo, nesses teus calções de cor clara e nessa camisola de cor magenta – como te apresentas hoje – e és ainda mais bonita nesse teu interior – como te apresentas sempre - de cor do céu. É assim que o imagino: azul.
Azul por ser a cor do céu, por me parecer a mim que estás sempre tão perto de tocar nas alturas – por sonhares, sabes? E isso faz de ti uma figura tão discrepante de mim. Eu que te pareço corajosa, sou mais frágil que tu, e contenho um interior mais escuro que o teu – diria cinzento se soubesse qual era a cor do medo.
E é nesta grandiosa afeição que te trago, que me vou confessando: eu tenho medo de sonhar, minha boneca frágil – ou diria antes destemida. Talvez por isso, é que tu me chames de pessoa – ainda que a tua querida pessoa – pessoa. Chamas-me pessoa porque eu tenho medos – até medo de sonhar. Dentro do teu íntimo, sabes que não sou possuidora de alento algum, nem da arte de sonhar, e por isso – ainda que inconsciente – chamas-me de pessoa. Enquanto eu te chamo de boneca. Porque os bonecos são para nos fazer felizes – como tu me fazes a mim – são para nos tirar os medos da noite, são para nos fazer imaginar, imaginar para sonhar.
Lamento que ainda não tenhas descoberto que eu sou feita de vidro – não de porcelana – de vidro. Vidro comum e com alguns pedaços partidos, por me ter desnudado e por previsivelmente me terem roubado a arte de sonhar. É por isso, boneca de porcelana, que eu não gosto que te toquem – além de mim – porque não quero que tu fiques feita estilhaços de vidro e com medo de sonhar. Não quero que fiques igual a mim.
A fragilidade – que na verdade é uma máscara que transportas para a tua coragem – achas ser o que te restou, e eu digo, que de tudo o que detive, tu és a única ente que ainda me pertence - fossemos nós humanos ser algum dia pertences de alguém – tu és a única ente que ainda não se quebrou em mil. Ainda permaneces inteira, na pouca carne que sobreviveu, no meu coração, aos estilhaços de vidro – os que me foram espetando. Tu ainda és a única ente que não partiu nada em mim. E lamento que não tenhas notado que o caminho que tomo é – todo - na ânsia de proteger o teu coração, para poder acolher o que ainda sobra de mim: a inspiração por ti.

quarta-feira, abril 20

O bilhete II




E não é mesmo, sou uma boneca de porcelana preciosa em quem gostas de tocar - mas gostas de ser exclusiva. Deve ser por isso, por te deixar com tanta facilidade tocar-me, que conheces a minha pele – característica - melhor que ninguém. E se calhar, é por isso que já me vai incomodando menos que me toques. Porque tu me tocas sem magoar, olhas-me com uns olhos melosos, e passas dois dedos na minha cara, sempre muito ao de leve. Tu sabes, tem de ser leve para não marcar - atrever-me-ia a dizer que só tu sabes como me tocar - mas isso ia fazer como que quisesses trocar-me as roupas mais vezes.
Pois, minha querida pessoa, além de gostares muito de me tocar, gostas de me trocar as roupas, ou tirá-las por completo. Deve ser porque me gostas de desnudar a fragilidade, a única marca que me sobra, a única característica que ainda pertence só a mim.  E é quando me pedes para tirá-las – as roupas - é só aí, que sinto um bocadinho de receio de ti. Se tu soubesses – se pudesses compreender - que em cada roupa que visto guardo no bolso um sonho em visto, não ias mais gostar de me desnudar, porque cada roupa que me tiras – ou me tiram - é como um sonho roubado. E é por isso, que eu não gosto que me tires as roupas. Mas vou deixando – ainda que só de vez em quando - porque tu és a única pessoa que ainda não me magoo - ou das poucas.
Mas tu sentes o meu ar extraviado quando me tiras as roupas - só não sabes ainda porquê – e além do meu ar, tu vês, quantas marcas sujas ficam em mim, boneca delicada, depois de alguém – neste caso tu – me despir. E depois, ficas tu meia extraviada, um pouco como a minha conduta, tentas sempre limpar-me, sempre com cuidado mas de forma inquieta, esfregas-me as manchas que me vais deixando no corpo - depois de me tirares as roupas - mas nem dás conta que estas minhas nódoas são estilo borrão - semeiam.
Não sabes o que me custa dizer-te que não – ainda que só de vez em quando – mas magoa-me tanto, que me tirem as roupas. E no silêncio, no afogo da alma, no perder dos sonhos, eu pergunto, tu que nunca me magoaste gostas mesmo de me roubar sonhos, não é? Ou gostas que fique eu e a minha fragilidade? É por ser mais eu e a minha inocência? Porque tu não sabes ainda - que cada roupa traz um sonho no bolso, mas sabes que não há ninguém que sonhe como eu, nem ninguém que se perca tanto como eu - nestas roupas fantasiosas.
Tu gostas mesmo de mim e da minha frágil pessoa, não é? De mim extraviada por perder roupas - os sonhos sabes? É disso, não é? Minha eterna esperança roubada. Mas se calhar, minha querida pessoa, só se calhar, devias sonhar mais um bocadinho, para veres como dói quando nos roubam um sonho.

sábado, abril 2

O bilhete I

..


Tens um ar de boneca frágil quando vestes o teu vestido cor-de-pele de mangas compridas, quando calças os teus sapatos rasos, aqueles que parecem de bailar, e quando não penteias os teus caracóis de leves madeixas.
Tens um ar de boneca delicada quando sais para a rua assim, porque além de desengonçada trazes um olhar meloso e enternecido e que me dizem tanto por serem tão silenciosos. Deve ser esse teu ar retraído que cativa as palavras, embora eu ache que realmente sejas muito boa nos silêncios, talvez porque fiques mais frágil - ou indefesa, penso-o antes.
Tens um ar de boneca fácil de partir, daquelas bonecas de porcelana que devem ser expostas para se contemplar a brandura – ou diria antes cortesia, se me pudesses perceber - mas nunca para se tocar. Nunca deveria ser permitido que te tocassem.
Tens esse ar de porcelana preciosa e deve ser por isso que não gosto que ninguém te toque. Pode marcar, não é? Sujar-te a alma ou partir-te o íntimo. Mas eu gosto de te tocar. Devia poder ser a única pessoa a tocar-te, tocar-te sempre que quisesse e afagar a tua pele característica. Devia poder trocar-te as roupas, mais vezes, ou de tirá-las por completo. Quando as tiro, quando me deixas, parece que te desnudo a delicadeza. E tu ficas meia extraviada porque achas que tal, é a única marca que te sobra.