Minha querida boneca de porcelana, talvez hoje seja o dia certo para te dizer o porquê de gostar da tua nudez – de te desnudar, sabes? Embora não saiba se me podes compreender, porque afinal tu não podes perceber o que é alguém inspirar-te, quando tu és a inspiração de alguém todos os dias – a minha diria eu, se me pudesses escutar para entender – não concordas comigo? Mas eu vou tentar explicar-te, porcelana preciosa.
Eu gosto de te desnudar – ou trocar-te as roupas – porque cada vez que te dispo, posso observar cada nódoa que trazes no corpo, e é isto que não sabes, mas eu julgo-as um sonho teu realizado – e tu tens tantas. E depois eu gosto sempre de acariciar as tuas cicatrizes, gosto de te passar um dedo ao de leve e seguidamente esfregá-las, esfregá-las com todo o carinho que possuo em mim, como se pudesse ficar igual a ti – manchada de sonhos.
É isso, para mim, tu não trazes nódoas no corpo, trazes sonhos, e eu poderia dizer-te que invejava isso em ti não fosses tu a minha boneca musa sonhadora, a pessoa mais bonita que se alçou na minha vida. És bonita, bonita mesmo, nesses teus calções de cor clara e nessa camisola de cor magenta – como te apresentas hoje – e és ainda mais bonita nesse teu interior – como te apresentas sempre - de cor do céu. É assim que o imagino: azul.
Azul por ser a cor do céu, por me parecer a mim que estás sempre tão perto de tocar nas alturas – por sonhares, sabes? E isso faz de ti uma figura tão discrepante de mim. Eu que te pareço corajosa, sou mais frágil que tu, e contenho um interior mais escuro que o teu – diria cinzento se soubesse qual era a cor do medo.
E é nesta grandiosa afeição que te trago, que me vou confessando: eu tenho medo de sonhar, minha boneca frágil – ou diria antes destemida. Talvez por isso, é que tu me chames de pessoa – ainda que a tua querida pessoa – pessoa. Chamas-me pessoa porque eu tenho medos – até medo de sonhar. Dentro do teu íntimo, sabes que não sou possuidora de alento algum, nem da arte de sonhar, e por isso – ainda que inconsciente – chamas-me de pessoa. Enquanto eu te chamo de boneca. Porque os bonecos são para nos fazer felizes – como tu me fazes a mim – são para nos tirar os medos da noite, são para nos fazer imaginar, imaginar para sonhar.
Lamento que ainda não tenhas descoberto que eu sou feita de vidro – não de porcelana – de vidro. Vidro comum e com alguns pedaços partidos, por me ter desnudado e por previsivelmente me terem roubado a arte de sonhar. É por isso, boneca de porcelana, que eu não gosto que te toquem – além de mim – porque não quero que tu fiques feita estilhaços de vidro e com medo de sonhar. Não quero que fiques igual a mim.
A fragilidade – que na verdade é uma máscara que transportas para a tua coragem – achas ser o que te restou, e eu digo, que de tudo o que detive, tu és a única ente que ainda me pertence - fossemos nós humanos ser algum dia pertences de alguém – tu és a única ente que ainda não se quebrou em mil. Ainda permaneces inteira, na pouca carne que sobreviveu, no meu coração, aos estilhaços de vidro – os que me foram espetando. Tu ainda és a única ente que não partiu nada em mim. E lamento que não tenhas notado que o caminho que tomo é – todo - na ânsia de proteger o teu coração, para poder acolher o que ainda sobra de mim: a inspiração por ti.









