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domingo, junho 5

A terceira chamada





- Estou?

- Estás-me a ouvir bem?

- Sim, diz.

- Eu não me importava que amanhã acordasse e todas as pessoas tivessem desistido de mim desde que tu não o tivesses feito. Tu eras a única pessoa que não podia ter desistido de mim. Não me doía se todas as outras o tivessem feito. Agora tu? Nunca poderias ter sido tu. Eu nunca podia ter acordado de manhã e aperceber-me do quão longe já estavas e como tinhas desistido de mim.

- Mas tu desististe primeiro.

- Eu nunca desisti realmente de ti mas eu investi tanto em nós que quase me esqueci de mim. Eu nunca me afastei de ti com a maldade de desistir de ti. Eu queria apenas que tu me viesses procurar por ti. Bolas, eras a única pessoa que não podia desistir de mim – e isto pareceu-me sempre tão improvável de acontecer. Foste tu desistir de mim sem conheceres, que eu nunca me poderia afastar de ti não fosse eu amar-te com tudo o que tenho – ou tinha.

- …

- E isto dói-me muito, dói-me muito todos os dias, não fosse eu ter desistido primeiro – ou ter-te feito pensar assim. Dói-me de tal forma, que levaste tudo contigo – quando desististe de mim - menos a dor. Dói-me de tal modo que deixei de sentir o nada para passar a sentir a dor.

- O que queres que te faça agora?

- Podias-me ter dado a oportunidade de investir em ti – mais uma vez. Mas caricatamente foi no implorar do teu amor que eu descobri que tu já estavas cansado deste, talvez por te ter amado demais. Porque eu sempre possuí este amor, este amor que sempre foi demasiado - demasiado para o que a alma nos concebeu. E agora já não podes fazer nada porque já desististe de mim, e isto, sem vacilares, se podíamos ou não ter um outro investimento, isto porque talvez tu já estivesses num investimento em outro paradeiro - não tivesse sido tarde demais para mim investir quando já haviam desistido. E agora, mesmo que quisesses eu não podia mais confiar-te o meu sorriso, isto porque já não consigo acreditar em ti, não fosses tu ter desistido de mim.

- Maf…

- Entre tantas pessoas só não podias ter sido tu. Não podias porque foram 365x4+183 dias a amar-te. Mas espero que te venhas a esquecer disto, porque em mais nenhum dia da nossa triste existência vamos viver um amor destes. Em mais nenhum dia te vão amar assim, onde podíamos ter sido um nós todos os dias. Mas agora já não estás aqui e não ousaste em roubar-me um sonho – quando resolveste desistir de mim enquando eu te amava de uma maneira quase perpétua.


Chamada terminada.

sábado, maio 28

A segunda chamada








- Estou? Tu outra vez?


- Lamento que te tenhas esquecido que um dia te entreguei o meu coração. Entreguei-to quando precisavas de uma estrada para caminhar, dias depois de me pedires para desenhar pormenorizadamente caminhos contigo. Dias depois de me pedires para te amar com todo o amor que tinha.
- …
- Foste embora cedo demais, ainda tínhamos tanto para nos mover. Mas tu foste embora, foste sem dar tempo para interromper o gesto de te dar o meu coração. O meu coração que tantas vezes te serviu de tapete: estava no mesmo sítio quando chegavas e no mesmo sítio quando abalavas. Sabes, para mim foste embora cedo demais porque eu ainda tinha mais amor para te dar. Mesmo vendo que tu interrompias os gestos de forma brusca e me deixavas cair no chão – mesmo vendo a pessoa desengraçada que te tornavas.
- Eu sinto a tua falta.
- E é nessa falta que os desconhecidos por quem passas na rua se tornaram mais familiares que eu, não é? Eles que nunca te disseram nada e eu que supostamente te disse tanto, são-te agora mais comuns que a tua própria casa, não é? Quando é que o mundo se deixou virar assim ao contrário? Quando é que deixaste de sentir amor por mim?
- Eu ainda te amo.
- E foi nesse amor que um dia te esqueceste de voltares para casa, não foi? A tua casa, o meu coração. Foi por isso que a último movimento foi uma pisada para abalares por completo? E eu que ainda deixei que o meu amor te procurasse e trouxesse para casa, fingi esquecer-me que não te havias perdido, só para te dar mais um bocadinho de amor. E eu amor, que ainda fingi que tu me amavas, depois de revelar que foste o meu melhor companheiro de movimentos, quando nos movimentamos no amor – e sem movimentos sobrepensados. Se é que te podes lembrar.
- …
- Como não te lembras que eu fui a única a enlaçar as promessas, sem conhecer que tu não sabias o valor delas, quando um dia pediste para nos perdermos nas minúcias dos movimentos - do amor - sabia tão pouco sobre o valor que tu davas às promessas. E tive – sozinha - de aprender que estas são palavras, só palavras e nada mais, que se atiram contra uma parede para ver se colam, e só deixam de ser palavras para passarem a ser promessas depois de coladas mesmo – cumpridas sabes? E tudo para saberes que eu ainda estou a enlaçada com a minha e a interpretar - desesperadamente - todos os pequenos detalhes de quando nos movimentos juntos, para tentar compreender onde (te) falhei.
- Mas olh…
- Não digas nada, porque se calhar as promessas só são promessas até encontrares outra(s).


Chamada terminada.

sexta-feira, maio 13

A primeira chamada


 
- Estou??
(Uma respiração muito forte e um barulho de fundo estrondoso para esconder as dúvidas das palavras)
- Estou?? Porque é que me estás a ligar?
- Hoje voltei ao – meu triste – ponto de partida: sentir saudades tuas. Hoje – mais do que o costume – lembrei-me de ti. Lembrei-me de ti, depois de me voltar a lembrar e a lembrar e a lembrar de ti. Fui pouco boa para mim.
- Mas…
- Sabes onde estive hoje? No início do nosso romance. Andei a evita-lo - está quase a fazer um ano – há quase um ano que fugia deste espaço e de ti, mas hoje fui lá – não fui sozinha – mas fui lá – mas só porque tinha de ir. Tentei na noite anterior apagar tudo quanto consegui sobre este – nosso - sítio mas assim que o vi – no dia a seguir, do outro lado da rua - a racionalidade fugiu-me. Vi todo o meu esforço da noite anterior morrer: mesmo sabendo que era um espaço de memórias, eu convenci-me que eram memórias ausentes. Ausentes do meu – novo – ser.
- Tu…
- Mas não deu, sabes? Enquanto apenas via o portão – do outro lado da rua – só me doía o peito- doía-me muito o peito. Mas eu já me acostumei a essa dor, é a dor da saudade, da saudade penetrante. Só não conhecia – ainda – a dor de se romper o coração. Tantas horas eu cosi este meu – pobre – coração, depois de nos afastarmos por quase um ano, e bastou o sítio – o sítio do início do nosso romance – para este se abrir de mim.
- …
- Eu não deixei o meu coração como tu deixaste que eu fosse, bolas porque é que ele me tinha de fazer isto? Passou quase um ano mas parece que não mudou nada: ainda se fazem romances bonitos ali. Só espero é que se façam finais diferentes – felizes sabes?

Chamada terminada.