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segunda-feira, julho 5

Desejos

«Larga tudo e fica comigo».Era assim que a conversa começava sempre, ou era assim que ia parar ao mesmo. Mas o excesso de desejo era a garantia que “nós” nunca ficaríamos juntos.
Entre tudo ou nada, eu escolhia “ser um apêndice” e tu entre tudo ou tudo, escolheste “ser um acréscimo”. Éramos dois amantes escondidos num conto de palavras.
Eu era um anexo da tua vida real. Era o sonho, as saudades, o que faltava para seres completo. Para mim, eras mais…eras um todo.
A ti “matava-te” o facto «de não conseguirmos construir alguma coisa», a mim só me consumia o facto de não conseguirmos continuar alguma coisa. Afinal, nós tínhamos a história que queria digitar na parede do meu quarto, não com medo de me esquecer, mas para me inspirar todos os dias. Inspirar-me a não correr por ti!
Não sou grande, não sou madura. Sou mais uma pequena criança, que todos os dias se lembra que histórias como a nossa só servem para assombrar o coração, e que episódios destes, não têm outro lugar se não na ficção. Pareces protagonizar cada incidente da minha vida. Sabes, eu pareço-me com uma televisão.
Programas-me e consequentemente, programas-nos. E isto faz-me ver que não posso correr por ti. Não posso apanhar o teu comboio, ou não o posso apanhar por ti. Nada mudou desde que eu cresci, ou desde que pensas que cresci. Eu continuo a mesma criança, mas agora com menos medo de ti.
Somos anos de tentativas falhadas, somos anos de palavras consumadas, somos anos de desejos arrecadados. Somos isto enquanto plural. Já em pessoal, fui soberba e pavor, agora sou a percepção.
«Fazes bater mais forte e não te ter, dói». Estas eram já palavras cansadas, funcionavam como “discos riscados” e “expressões coladas”. Gostava que me as dissesses, mas gostava que me dissesses só a mim.
Ainda me assombras o coração, mas não (deves) assombrar só o meu. Sou pequena, mas já não corro por ti. Porque para ti, não podes ser só tu, mas por ti, poderia ser só eu.
És a minha fantasia mais bem guardada. E hoje, sem medo, somos só bonitos bocados de plasticina que se moldam no dia-a-dia, a episódios que contornem este desejo, e se ajustem a esta ausência.
Tivemos a nossa hipótese, mas não conseguimos, não conseguimos ser mais que este “vaivém”. Agora eu gosto deste inconstante e tu estás longe de apreciar “o que me move”.
Aprendi que somos o desejo, e o desejo não tem lugar, aqui no real. Não corro por ti porque nenhum de nós na verdade, «deixaria tudo por nós». Porque se assim fosse…eu já tinha “abandonado”, e tu já tinha “largado”.
Somos uma bonita narrativa. Mas acho que nos acomodámos a ser a saudade, o desejo e a ausência. E ainda somos bonitos, porque o destino o quer. Nunca esboçamos um encontro, nunca tivemos um. Somos alvo do destino. Ele é que nos une a este desejo e nos transporta a uma estação, que é tão ideal, quanto nós. Tu és um ideal e os ideais não se conseguem.
«És tudo o que sempre sonhei» - e disto tiro uma lição: sonhar não é poder pelo menos "aqui",. Porque nós tínhamos/temos sonhos conjuntos, muito altos, mas impossíveis, para duas pessoas como nós. Escondidas do coração e que aprenderam a não correr por esta ânsia, por este excesso de desejo. E é este desejo que é uma utopia e é a segurança que jamais apanharemos o mesmo comboio, porque um desejo deste tamanho não é real para a alma, não cabe no coração. Real é só a ausência que o acompanha. A tua ausência.

terça-feira, abril 6

Verbo querer

Quero que conjugues o verbo querer em nós; pedes-me.Eu quero; Tu queres; Ele quer; Nós queremos; Vós quereis; Eles querem – soletro eu, sem objectivo. Só porque sim; só por querer(es).
Após sorrires com os olhos a satisfação de uma obstinação; perguntas-me em que conjugação gosto mais de ver o verbo querer escrito.

Para mim e para os meus botões; penso de como gosto de ver o verbo querer conjugado na primeira pessoa do plural – nós. E cá te digo, de preferência no presente. Melhor, para ser sincera, gostava de nos conjugar no futuro, e lembrar-nos no passado.
Mas assumir-me nestas palavras era deixar-te ganhar, em permitir que ouvisses as “confissões de uma miúda que qualquer coisa por ti”.
Assim desprezo, o “Vós quereis” porque poderias não perceber o requinto da palavras; e o “Eles querem” porque não gosto do impessoal que assume.
Centro-me em mim e no particular – “Eu quero”; Revelar-te seria catastrófico. Era admitir-me e cair. Era deixar que me descobrisses, era dizer-te qual é o meu ponto fraco.

Mas na verdade, fui sempre eu que te quis. Procurei-te fosse verão ou inverno. Mas o teu desprezo ou indiferença, como lhe queiras chamar, respondia por ti. Optavas pelo silêncio.
Fazes uma expressão de quem já desespera por esperar, e vejo que já enrolei.
Será que me fiz ouvir para lá dos meus botões?!
“Tu queres” – digo apressada e meia corada; Já estou é a balançar no sonho e na verdade.
“Eu quero-te” – dizes tu, agradado com a resposta. Mas ainda tomas a ousadia de te completar em disparates: dizes que me queres nos dias pares e nos dias ímpares, para a manhã a tarde e a noite e para quando faz frio e sol também.“
Sim, sim” – não controlo as palavras. Deves querer-me a mim e a duzentas daqui e dali. Deves querer-me como me querias nas promessas do outro dia. Deves querer a tempo curto e temporário.
Estás com um ar zangado; Volto a peregrinar as palavras, mas não controlo a força de como me caiem-me pela boca.
“Além da Mafalda que és tu, só quero a minha mãe.” – repetes persistente.Tento não me render a estas palavras; Mas na verdade, eu quero-te.
Perguntas-me em que termos. Portanto, calculo que as minhas feições falaram por mim.
“Quero-te – a tempo continuo; não por pré-períodos. Quero que não desistas de mim, seja lá por que motivo for. Continua e longa, se não for pedir muito.
“Adoro tudo o que escreves. É demais.” - exprimes-te, após a minha declaração!

E eu adoro escrever! E escrevo; Rascunhos de vida. Mas deposito-lhes fé. Mas nestas palavras não consigo depositar. O optimismo não acompanha o “nós”.
Impregnas as minhas palavras; Culpas-te pela minha falta de optimismo. E prometes que me provarás qualquer coisa. De como o verbo querer numa só pessoa é incompleto; São precisos dois, um plural.
Mas pedes-me falta de credibilidade no passado, e quando ele é chão do meu espelho, eu não o posso fazer. Só aguardar sinais.
(Olha, não era mais bonito ver-mos o verbo querer, conjugado no tempo presente da primeira pessoa do plural?!)